domingo, 23 de agosto de 2009

Poética

"De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço.
A Oeste a morte
contra quem vivo
Do Sul cativo
O Oeste é meu Norte.
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
nasço amanhã
ando onde há espaço
- Meu tempo é quando."

New York, 1950 - Vinícius de Moraes

As sem razões do amor


" (...)

Eu te amo porque não amo

bastante ou demais a mim.

Por que amor não se troca,

não se conjuga, nem se ama.

Por que amor é amor à nada,

feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,

e da morte vencendor,

por mais que o matem (e matam)

a cada instante de amor."


Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Hoje é dia do Folclore!!!


O Folclore é o conjunto de tradições populares de uma região. Ele compreende as lendas, as músicas, as danças, os festejos, as cantigas de ninar e de roda e as crenças, que fazem parte dos costumes do povo.

As danças regionais como baião, frevo, capoeira, catererê, maracatu, maxixe, quadrilha, fandango e outras fazem parte do nosso Folclore.

Você conhece cantigas de roda, como Se essa rua fosse minha, Teresinha de Jesus, o cravo brigou com a rosa e Pula, machadinha? E cantigas de ninar, você conhece alguma? Quem não dormiu ouvindo O boi da cara preta?

Quem não conhece as lendas so Saci-Pererê, da Caipora, do Lobisomem, da Mula-sem-cabeça ou da Boiúna, a Cobra Grande?

Certos festejos como o Bumba-meu-boi e a Festa de Reis também pertencem ao Folclore brasileiro.

O nosso Folclore resultou grandemente da união das culturas portuguesa, negra e indígena.


Um ótimo dia do Folclore!!!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Fama, a deusa de 100 bocas

A Fama, divindade alada, filha de Titã e Geia, mais famosa em Roma que na Grécia, antigas, cultuada no mundo comteporâneo, era mensageira de Júpiter, tinha a cara de louca e voava à frente do seu cortejo, disseminando mentiras e verdades por suas 100 bocas. O poeta Virgílio (71 a.C.-14 d.C.) a cantou como o mais rápido dos flagelos por causa de "sua mobilidade", de onde vinham "suas forças que ela aumenta correndo. Pouco temível, a princípio, em breve sobe aos ares e , com os pés presos no chão, esconde a cabeça nas nuvens. Monstro horrível, voa de noite entre o céu e a terra e nunca dorme, de dia espreita do cimo dos palácios, no alto das torres, amedrontando as grandes cidades, semeando mentiras e verdades".

Janis Joplin (1943-1970) foi arrastada por ela aos 27 anos, Jimi Hendrix (1942-1970) e Jim Morrison (1943-1971), aos 28, Elis Regina (1945-1982), aos 37, Cazuza (1958-1990), aos 32, e Cássia Eller (1962-2001), aos 39. John Lennon (1940-1980), aos 40. Michael Jackson (1958-2009), possivelmente seu predileto, lhe resistiu por 46 anos dos 50 que viveu, até que ela parou seu coração na tarde de 25 de Junho. Se a vida é uma sucessão de sucessores, Jackson sucedeu Elvis Presley (1935-1977), que a Fama levou aos 42 anos, desfigurado por hot-dog e anfetamina.

A divindade disseminou de Jackson 50 plásticas, mudança de cor, dois casamentos, um com a filha do seu antecessor, Lisa Presley, três filhos, uma fortuna de milhões de dólares e a venda de quase um bilhão de cópias de álbuns, dos quais Thriller (1982), o mais vendido da história da música, chegou a 40 milhões. Disseminou, também, We Are The World (1985), um jeito pop de denunciar a clássica miséria, o controle dos direitos autorais de composições dos Beatles, histórias verdadeiras ou falsas sobre pedofilia, falência e negócios desastrosos. Aprendemos cedo que somos semelhantes a Deus, e assistindo às 100 bocas da Fama repercutirem a morte dos mitos, percebi que ele era inimitável e perfeito, como um deus. Deus nos proteja dos homens, aprendemos tarde, porque é insuportável ser perfeito entre os homens.

domingo, 2 de agosto de 2009

Em juízo


Último recurso:

O réu estava sendo julgado por assassinato. Havia fortes evidências sobre sua culpa, mas o cadáver ainda não aparecera. Sem muita esperança, o advogado arrisca:

- Tenho uma surpresa. Dentro de um minuto, a pessoa presumivelmente assassinada entrará neste tribunal. E olha para a porta. Os jurados, surpresos, repetem o gesto. Findado o prazo, o advogado retoma:

- Realmente, ninguém entrou. No entanto, por vossa expectativa, depreende-se que o júri não tenha certeza de que alguém foi morto, não há assassino.

Os jurados retiram-se para a decisão final. E vem o veredicto: Culpado.

-Culpado? Mas como? - pergunta o advogado. - Vocês estavam em dúvida, eu vi todos olharem para a porta!

E o juíz para arrematar:
-E verdade. Todos olhamos para a porta. Menos o seu cliente.

sábado, 25 de julho de 2009

Serenata


Repara na canção, a canção é tardia
que timidamente se eleva,
num arrulho de fonte fria.

O orvalho treme sobre a treva
e o sonho da noite procura
a voz que o vento abraça e leva.

Repara na canção, a canção é tardia
que oferece a um mundo desfeito
sua flor de melancolia.

É tão triste, mas tão perfeito,
o movimento em que murmura,
como o do coração no peito.

Repara na canção, a canção é tardia
que por sobre o teu nome, apenas,
desenha a sua melodia.

Cecília Meireles

Ódio?


Ódio por ele? Não... Se o amei tanto,
se tanto bem lhe quis no meu passado,
se o encontrei depois de o ter sonhado,
se à vida assim roubei todo o encanto...

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
turva o meu triste olhar, marmorizado,
olhar de monja, trágico, gelado
como um soturno e enorme Campo Santo!

Ah! Nunca mais amá-lo já é o bastante!
Quero senti-lo d'outra, bem distante,
como se fora meu, calma e serena!

Ódio seria em mim saudade infinda,
mágoa de o ter perdido, amor ainda.
Ódio por ele? Não... não vale a pena...

Maria Lúcia Dal Farra (org). Poemas de Florbela espanca. São Paulo: Martins Fontes, 1996.