sábado, 25 de julho de 2009

Serenata


Repara na canção, a canção é tardia
que timidamente se eleva,
num arrulho de fonte fria.

O orvalho treme sobre a treva
e o sonho da noite procura
a voz que o vento abraça e leva.

Repara na canção, a canção é tardia
que oferece a um mundo desfeito
sua flor de melancolia.

É tão triste, mas tão perfeito,
o movimento em que murmura,
como o do coração no peito.

Repara na canção, a canção é tardia
que por sobre o teu nome, apenas,
desenha a sua melodia.

Cecília Meireles

Ódio?


Ódio por ele? Não... Se o amei tanto,
se tanto bem lhe quis no meu passado,
se o encontrei depois de o ter sonhado,
se à vida assim roubei todo o encanto...

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
turva o meu triste olhar, marmorizado,
olhar de monja, trágico, gelado
como um soturno e enorme Campo Santo!

Ah! Nunca mais amá-lo já é o bastante!
Quero senti-lo d'outra, bem distante,
como se fora meu, calma e serena!

Ódio seria em mim saudade infinda,
mágoa de o ter perdido, amor ainda.
Ódio por ele? Não... não vale a pena...

Maria Lúcia Dal Farra (org). Poemas de Florbela espanca. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Posêidon


O palácio dourado do deus marinho cintilava nas águas profundas e calmas de uma ilha. Posêidon vivia ali em companhia da rainha Anfitrite. Ás vezes saía do fundo arenoso; o mar então se abria para deixar seu carro passar. E ao lado dele se viam as ninfas e os monstros pulando de alegria.
Seus passeios nem sempre eram de bom agouro. O deus era muito irritadiço. Quando sua raiva chegava ao auge, ele surgia das águas brandindo seu tridente. Podia desencadear tempestades e promover a subida da água dos rios, que transbordavam. Também sabia fazer o chão tremer, provocando os terremotos. Por isso, os homens o temiam e tomavam a precaução de lhe oferecer esplêdidos sacrifícios antes de iniciar uma viagem no mar.

(Claude Pouzadoux, Contos e lendas da mitologia grega.)

Túnel



Já não dá pra ser criança
falta muito pra ser adulto.
A gente vai levando.

Na aula de catecismo, a professora tentava ensinar aos alunos lá do cafundô-do-Judas como se fazia o pelo-sinal. Ensinou a fazer a cruzinha na testa, na boca, no peito. Ensinou, ensinou, mas não teve muito êxito.
Um dia, resolveu testar se tinham aprendido. E um dos meninos disse:
- Óia, fessora, fazê as cruizinha nóis já sabe.Nóis não sabe ainda é ispaiá elas na cara.

(Ziraldo, As últimas anedotinhas do Bichinho da maçã, p. 44.)

Feira de livro


O que os poetas escrevem agrada ao espírito,
embeleza a cútis e prolonga a vida.

(Mário Quintana, Caderno H.)

domingo, 14 de junho de 2009

Uau!


Fiquei olhando, perguntando,
Sondando, assuntando,
ciscando você.
E quando dei por mim...
Já estava amando.

(Diário de uma paixão, cit.)